Crítica Expatriadas | Sobre os laços invisíveis que nos unem


Embora seja um termo conhecido, expatriado não é uma palavra tão comum no nosso dia a dia. Motivo pelo qual, quem ouve o vocábulo pela primeira vez, pode imaginar que ele é sinônimo de imigrante, designando uma pessoa que deixa seu país de origem porque busca ajuda ou melhores condições de vida em outro lugar.

O problema é que, embora sejam expressões parecidas, expatriado e imigrante estão longe de serem iguais. O primeiro, na verdade, diz respeito às pessoas que vão para o exterior transferidas por grandes empresas, desfrutando de um estilo de vida e de um poder aquisitivo muito superior ao daquelas que foram tentar a sorte ou se mudaram por necessidade.

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Em Expatriadas, nova minissérie do Amazon Prime Video que chegou nesta sexta-feira (26) ao catálogo do streaming, acompanhamos a vida de alguns expatriados americanos que moram em Hong Kong, na China. Mais precisamente de uma comunidade em que a riqueza é virtude e onde a disparidade econômica que os rodeia parece nem existir.

Dirigida por Lulu Wang (A Despedida), a minissérie é baseada em um livro homônimo escrito por Janice Y. K. Lee, que teve seus direitos adquiridos pela Blossom Filmes, produtora de Nicole Kidman (Big Little Lies). Pouco depois, a Amazon também se juntou ao projeto, que tinha a difícil missão de adaptar uma história que fala de maternidade, diferença de classes e dos muitos lados de uma tragédia.

Uma tragédia que muda tudo

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Expatriadas conta a história de Margaret (Nicole Kidman), uma mulher nascida nos EUA, que mora com a família em Hong Kong devido ao trabalho do marido. Mãe de três filhos, ela acaba de vivenciar uma calamidade quando a trama começa, já que Gus, o caçula do casal, se perdeu em meio ao mercado municipal e está desaparecido há meses.

No mesmo prédio de Margaret mora também Hilary (Sarayu Rao), uma expatriada que, assim como ela, tem motorista 24 horas e frequenta apenas os lugares mais caros da cidade. Casada com David (Jack Huston), que teve seu vício em álcool revelado após o desaparecimento de Gus, ela tenta se convencer de que seu casamento ainda tem salvação – embora todos os indícios apontem para a separação.

Por fim, a série ainda acompanha Mercy (Ji-young Yoo), uma jovem americana-coreana que vive de bicos em Hong Kong. Formada nos EUA, Mercy está tentando encontrar seu lugar no mundo, um caminho que se torna muito mais doloroso após ser a “responsável” pelo desaparecimento do caçula de Margaret e ser soterrada pela culpa e desespero do que aconteceu.

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Unidas por essa tragédia, as três personagens são o grande fio condutor da minissérie, que se ramifica ao longo dos episódios para contar as histórias e os dramas vividos por alguns de seus familiares, amigos e funcionários.

Essa quantidade de enredos, inclusive, e até mesmo a não linearidade da trama (que começa depois do desaparecimento de Gus e volta no tempo para explicar o que aconteceu) pode deixar alguns telespectadores mais confusos, mas é indispensável para mostrar a complexidade de todas essas relações.

Afinal, assim como na vida real, os personagens de Expatriadas são tridimensionais, tendo que lidar com cicatrizes e demônios internos, mas sem que isso os tornem imunes de também serem os “vilões” da vida de outras pessoas.

Maternidade e diferença de classes

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Ao longo de seus episódios, um dos temas mais retratados pela série do Prime Video é o da maternidade. Sem apelar para falsos moralismos, o show busca mostrar toda a profundidade desse tipo de relação, colocando em cena personagens com diferentes visões e vivências do assunto.

Entre elas estão, por exemplo, a senhora que chega em casa todo dia receosa pela vida do filho; a matriarca que se afasta da própria família porque precisa trabalhar cuidando das crianças dos outros; a mulher que nunca sonhou em engravidar e até mesmo a mãe que, desesperada pela perda de uma de suas crianças, negligencia as outras que restaram.

Conexões tratadas com muita delicadeza pela produção, mas que mostram como a maternidade pode ter diferentes significados e ser expressa de muitas maneiras.

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Da mesma forma, o show também se propõe a falar sobre as diferenças de classes, mostrando como seus protagonistas, para além de todos os problemas que possuem, são indivíduos completamente alheios à realidade. Essas diferenças ficam ainda mais evidentes devido ao contexto social da série, ambientada no ano de 2014 quando Hong Kong vivenciou a “revolta do guarda-chuva”.

Protesto popular pró-democracia que levou milhares de estudantes para as ruas, o movimento serve de palco para uma das subtramas do seriado, sendo essencial para destacar a consciência política (ou falta dela) dos personagens, suas noções de pertencimento e os extratos sociais claramente divididos da região.

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Um emaranhado de muitas histórias

A escolha de Hong Kong para o cenário da trama, inclusive, não poderia ter sido mais certeira. Pulsante, ela desempenha um papel fundamental na narrativa, seja através das suas cores, construções ou comidas.

Com um design de produção extremamente caprichado, a série faz com que o telespectador se veja mergulhado na cidade, de maneira que, em determinado momento, conseguimos até “sentir” o cheiro das ruas e a sensação de pequenez trazida pelas suas multidões.

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Grandiosa, mas ao mesmo tempo microscópica, Expatriadas é uma série madura e bem feita, que funciona muito mais como um retrato dessa comunidade e do seu entorno do que de uma trama específica. O telespectador mais desavisado tem tudo para ser surpreendido por sua narrativa. E, se parar para olhar com atenção, para ser arrebatado por suas sutilezas.

Os primeiros dois episódios de Expatriadas já estão disponíveis no Amazon Prime Video. O Canaltech também teve acesso aos outros quatro capítulos da trama, que chegam semanalmente ao streaming até dia 23 de fevereiro.



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