Pressão interna e externa sobre Netanyahu aumentam


BOA VISTA, RR (FOLHAPRESS)

A pressão sobre o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, cresceu nesta quarta-feira (3) diante de massivos protestos contra o governo e das repercussões do ataque das forças israelenses a um comboio de ajuda humanitária que matou sete funcionários da ONG World Central Kitchen (WCK), na Faixa de Gaza, nesta terça (2).

Benny Gantz, membro do restrito gabinete de guerra de Israel, pediu nesta quarta a convocação de eleições nacionais para setembro, dias após milhares irem às ruas em Jerusalém e Tel Aviv exigindo um novo pleito, com críticas especialmente à forma como Netanyahu tem lidado com as negociações relativas aos cerca de 130 reféns ainda em posse do Hamas.

“Devemos concordar com uma data para as eleições em setembro, a caminho de um ano de guerra, se quiserem”, disse Gantz em uma entrevista coletiva televisionada. “Definir uma data permitirá que continuemos o esforço militar enquanto sinalizamos aos cidadãos de Israel que em breve renovaremos a confiança deles em nós.”

Também nesta quarta, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, considerou insuficiente a explicação de Israel sobre a morte dos trabalhadores da WCK –o fundador da organização é o chef espanhol Jose Andrés.

Tel Aviv assumiu a autoria “não intencional” do ataque ao comboio, o presidente Isaac Herzog pediu desculpas e Netanyahu afirmou que “isso acontece em guerras”.

“Isso é inaceitável e insuficiente, e estamos aguardando uma explicação muito mais forte e detalhada, após a qual veremos que ação tomar”, disse Sánchez em entrevista coletiva em Doha, no Qatar.

O premiê qatari, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, afirmou em entrevista coletiva que “não podemos deixar o destino da região a políticos aventureiros que só se preocupam com seus interesses pessoais”, durante fala sobre Israel, sem contudo mencionar Netanyahu. Doha tem agido como mediador de diálogos entre Israel e Hamas, e o premiê israelense pressionou o Parlamento local para proibir a rede qatari Al Jazeera no país.

O chef Andrés afirmou à agência Reuters que o ataque ao comboio de sua ONG em Gaza tratou os veículos como alvo e os atingiu “sistematicamente, carro por carro”. Segundo ele, a WCK mantinha comunicação clara com o Exército israelense, que, de acordo com Andrés, sabia das movimentações dos funcionários da ONG em Gaza.

Os corpos de 6 dos mortos na ofensiva –3 britânicos, 1 australiano, 1 polonês e 1 canadense-americano– foram entregues a diplomatas no Egito para serem repatriados. O sétimo corpo, de vítima palestina, foi enterrado em Rafah. A chancelaria polonesa convocou o embaixador de Israel em Varsóvia para falar sobre “responsabilidade moral, política e financeira”.

Andrés falou com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na terça. “Os EUA devem fazer mais para dizer ao primeiro-ministro Netanyahu que esta guerra precisa acabar agora”, disse ele. Biden, que disse após o ataque que Israel não tem feito o bastante para proteger trabalhadores humanitários, deve conversar por telefone com o premiê israelense nesta quinta (4), de acordo com um funcionário do governo americano.

O chef espanhol diz que sua organização ainda estuda a situação de segurança em Gaza enquanto planeja a retomada de entregas de ajuda humanitária.
Várias entidades não governamentais criticaram a ação de Israel no território palestino e afirmaram que o incidente com a WCK na terça ilustra agressões que chamaram de “sistemáticas” das forças israelenses contra ONGs.

Como a WCK, várias instituições em Gaza tentam se proteger de ataques israelenses indicando seus movimentos em uma “plataforma” fornecida por Tel Aviv, explica Benjamin Gaudin, responsável pelas operações no Oriente Médio da ONG humanitária Première Urgence.
Isso não impede, no entanto, “múltiplos incidentes”, nas palavras de Gaudin. Segundo ele, os funcionários que trabalham no auxílio humanitário no território se sentem em perigo em operações ali desde o início da guerra.

“O nível de perigo que enfrentamos em Gaza é sem precedentes”, afirmou Claire Magone, porta-voz dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), que nos últimos seis meses relataram 21 bombardeios ou incidentes contra hospitais ou ambulâncias. Cinco funcionários palestinos da organização morreram “em ataques aéreos israelenses ou por tiros em um posto de controle israelense”, diz Magone.

Bushra Khalidi, da Oxfam, ficou surpresa com a resposta de Israel às mortes dos trabalhadores da WCK. Segundo ela, o incidente destaca os “ataques deliberados e sistemáticos de Israel contra o esforço humanitário”.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) ecoa essas críticas. “Vemos muitas missões sendo obstruídas, atrasadas ou rejeitadas”, diz Rik Peeperkorn, representante da OMS nos territórios palestinos.

“É necessário revisar completamente nossas relações com o Exército israelense”, afirma Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês para Refugiados. “O ataque demonstra que Israel não tem controle sobre suas forças”.

Diversas instituições do tipo pedem uma apuração independente do ocorrido. “Investigações internas do Exército israelense sobre seus próprios erros, realmente não vejo nada saindo disso”, avalia Caroline Seguin, da MSF.



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