Sucessão de Lira na Câmara passa por cargos na Caixa e caravana no Carnaval


A eleição para presidente da Câmara dos Deputados, será em fevereiro do próximo ano, mas o tema já mobiliza a Casa

VICTORIA AZEVEDO E THIAGO RESENDE
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Os principais candidatos à sucessão de Arthur Lira (PP-AL) na presidência da Câmara devem intensificar a sua atuação, na volta do recesso legislativo, buscando parlamentares, líderes e membros do governo Lula (PT) para se consolidar na disputa.

A eleição será em fevereiro do próximo ano, mas o tema já mobiliza a Câmara.

Lira não pode concorrer à reeleição e pretende transferir o capital político que tem a um sucessor. Líderes e deputados ouvidos pela Folha afirmam que, nos bastidores, as indicações de vice-presidentes da Caixa Econômica Federal fazem parte da estratégia dele para agregar apoio em torno de um nome de sua escolha.

Procurado, o deputado alagoano não se manifestou sobre o assunto.

Em entrevista à Folha em setembro, Lira reconheceu que as indicações políticas para as 12 vice-presidências do banco passariam por ele. Em janeiro, o Conselho de Administração da Caixa aprovou o nome de seis novos vice-presidentes e indicou a aprovação de um sétimo, atendendo a indicações de PP, PL, Republicanos e PDT.

Apesar de nas conversas com aliados Lira não ter indicado quem será o seu candidato, há uma avaliação de que dois nomes estão mais fortes na disputa pelo seu apoio: o líder da União Brasil, Elmar Nascimento (BA), e o vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP). Segundo relatos, Lira tem afirmado a eles que apoiará quem se viabilizar na disputa.


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Há ainda dois líderes que correm por fora como possíveis alternativas. O do PSD, Antonio Brito (BA), e o do MDB, Isnaldo Bulhões Jr. (AL). Ambos têm cortejado o governo federal.

De acordo com interlocutores, Elmar e Pereira firmaram um acordo. Quando a eleição estiver mais perto, apenas um seguirá na corrida, no caso, o que tiver conseguido mais endosso entre os colegas.

No contexto de ampliar apoio em torno das eleições, Elmar deverá levar um grupo de cerca de 80 deputados ao Carnaval da Bahia, com acesso a camarotes em Salvador. O líder da União Brasil costuma organizar esse tipo de viagem anualmente —mas em menores proporções.

Outros parlamentares também deverão organizar caravanas para cidades onde o Carnaval é forte, como Rio de Janeiro e Recife.


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De acordo com relatos, Elmar fez chegar ao governo federal que um apoio ao seu nome pode ter mais relevância agora do que quando a disputa já estiver definida. Ainda segundo aliados, ele afirmou que quer o apoio do Executivo, mas que não irá esperar isso.

Para ser eleito, é preciso alcançar maioria absoluta dos votos em primeiro turno. Caso haja segundo turno, vence quem atingir maioria simples.

Segundo deputados, pesa contra Elmar o fato de o senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), seu correligionário, ter pavimentado o caminho para suceder Rodrigo Pacheco (PSD-MG) no comando do Senado. Dessa forma, avaliam, seria difícil que um mesmo partido ocupe a presidência das duas Casas.

Para rebater essa crítica, Elmar afirmou a membros do governo que isso seria um facilitador, uma vez que estaria resolvido o que considera o principal impasse do governo hoje: a falta de sintonia entre presidentes da Câmara e do Senado.


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No outro lado, Marcos Pereira deve seguir investindo no contato direto com parlamentares e na busca do apoio do governo. No ano passado, ele se reuniu com um grupo de deputados do PT e fez gestos ao Executivo.

Na quinta-feira (1º), ele se encontrou com Lula no Palácio do Planalto e, na sexta-feira (2), cumpriu agendas ao lado do petista em São Paulo —a convite do presidente, o deputado viajou no avião oficial.

Segundo relatos, na ocasião eles não discutiram a eleição da presidência da Câmara. Para aliados de Pereira, no entanto, o gesto do presidente de convidá-lo para as agendas é uma sinalização positiva.


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Para deputados governistas, pesa contra o vice-presidente da Câmara o fato de ele presidir o Republicanos, partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado de Jair Bolsonaro (PL).


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Diante dessa crítica, o entorno de Pereira tem afirmado que Tarcísio está no partido, mas não é partidário. Eles ressaltam que o governador já deu declarações ameaçando deixar a legenda.

Aliados do parlamentar dizem que ele seguirá no movimento que vem fazendo desde o ano passado, sem apressar as tratativas. Isso porque há uma avaliação de que quem se colocar na disputa neste momento poderá se queimar com Lira.

Um fator ainda incerto é o efeito que as tensões políticas entre Lira e o Planalto podem ter no processo de sucessão. Na abertura do ano legislativo nesta segunda (5), o presidente da Câmara fez um discurso repleto de recados críticos ao que considera acordos não cumpridos pelo governo Lula.

Em seu pronunciamento, Lira afirmou que “errará grosseiramente” quem apostar numa inércia da Câmara em 2024, em razão das eleições municipais; e em rezão das “especulações” de quem irá sucedê-lo na presidência da Câmara, “que ocorre apenas em 2025”.

Atualmente, a Câmara tem dois grandes blocos: o de Lira (PP, União Brasil, PSDB, Cidadania, PDT, Avante e Solidariedade) e outro com formado por MDB, PSD, Republicanos e Podemos.

O grupo liderado pelo presidente da Câmara sofreu um baque nesta segunda, com a decisão do PSB de se retirar do bloco.

Embora a eleição ocorra somente daqui a um ano, há uma avaliação de que é preciso acelerar as tratativas ainda neste primeiro semestre, tendo em vista que com as eleições municipais, em outubro, a Câmara deverá ficar esvaziada.

Além disso, até lá podem surgir novos nomes na disputa. O PL de Bolsonaro ensaia lançar um candidato. A avaliação de parlamentares da legenda, no entanto, é a de que esse movimento serve para demarcar espaço e eventualmente ser usado nas negociações —e que não necessariamente será levado até o fim.

Membros do Palácio do Planalto afirmam que o diagnóstico atual é o de que o governo não deve se envolver na disputa de temas internos do Congresso.

Deputados do PT ainda carregam o receio de repetir o erro de Dilma Rousseff, que em 2015 saiu derrotada na eleição do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. O então parlamentar acabou abrindo processo de impeachment contra a petista.

Por outro lado, há uma avaliação entre integrantes do Executivo de que Lira tem demonstrado uma postura de enfrentamento com o Planalto e se distanciado, o que abre espaço para que outras lideranças da Casa se aproximem da gestão petista.



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