Crítica Priscilla | Coppola constrói um retrato simples do machismo estrutural


Depois de assistir a Austin Butler balançando os quadris como Elvis na cinebiografia homônima de 2022, dirigida por Baz Luhrmann, chegou a hora do público ver o outro lado da moeda: a versão dos fatos pelo olhar da sua esposa, Priscilla Presley. Intitulado apenas Priscilla, o novo longa de Sofia Coppola traz um olhar feminista para o relacionamento conturbado do rei do rock com a jovem do Brooklyn, e mostra como o machismo estrutural moldou o relacionamento do casal e destruiu a inocência e a vida da protagonista.

Firmando a sua marca registrada, Coppola deixa os homens de lado e foca especialmente em contar como a jovem de 14 anos, que morava na Alemanha Ocidental por causa do pai militar, deixa de ser uma pobre garota sonhadora para se tornar a esposa infeliz de um dos maiores astros que o mundo já viu.

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Interpretada pela novata Cailee Spaeny, Priscilla conhece Elvis por intermédio de outro oficial dos Estados Unidos, e logo engata um namoro que terminaria em casamento. É curioso ver como sua vida é marcada por proibições desde a adolescência, quando tinha que obedecer às ordens do pai, até a vida adulta quando teve que abaixar a cabeça para os desmandos do marido.

Para ilustrar esse momento, Sofia Copolla se vale de várias estratégias, mas acerta especialmente quando retrata de forma sutil o ato de transição da loira e sorridente Priscilla Beaulieu para a morena e irritada senhora Presley. Ali, o público já sabe que quase tudo está perdido e o que resta é acompanhar Elvis se tornando cada vez mais distante e frio.

Se, na biografia de Luhrmann, o astro impressiona pelo magnetismo, nesse filme ele é visto do avesso, com todas as suas entranhas expostas. É claro que o seu remelexo e carisma ainda estão ali, mas a realidade é que, para sua esposa, o que sobrava era um homem cansado, violento, infantil e frígido.

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E dar vida a esse Elvis foi uma tarefa ingrata que coube ao australiano Jacob Elordi (Euphoria). Com boa intenção, ele conseguiu reproduzir os maneirismos e o jeito do rei do rock, mas exagerou no modo de falar e ficou parecendo que tinha uma batata quente na boca o tempo todo. A altura também não o ajudou. Elordi tem 1,96 metro e Elvis apenas 1,82 metro, e em cena isso fez muita diferença, já que parecia que o personagem estava sempre curvado, talvez numa tentativa de parecer menor.

Tirando isso, o elenco não faz feio e certamente Priscilla será um chamariz para a carreira de Cailee Spaeny. Indo além, o figurino e a maquiagem foram decisivos para tornar a trama mais verossímil, e a escolha da diretora em não usar nenhuma música inteira de Elvis na trilha sonora também é um fato importante que diz muito sobre a mensagem que ela queria passar — para Priscilla, o astro nunca estava disponível por completo.

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Uma história como muitas outras

Infelizmente, a história de Priscilla não é inédita e nem uma novidade para várias mulheres que já enfrentaram violência doméstica e se tornaram, de certo modo, reféns das humilhações de seus maridos. E aqui começam os problemas do filme. Embora seja satisfatório entender o ponto de vista da mulher, a obra de Coppola não traz nada de novo e ainda fica andando em círculos, mostrando uma sucessão de: Elvis bêbado brincando com amigos, Elvis indo embora em turnê, Elvis voltando para casa.

Chega um momento em que a narrativa se esgota e faz falta que haja uma reviravolta ou algo a mais que chame a atenção, mas quando esta vem, infelizmente encerra o longa. Uma possível solução talvez fosse esmiuçar ainda mais os sentimentos e angústias de Priscilla e como ela teve coragem de tomar a atitude que mudou sua vida.

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Outro problema é a montagem. Em alguns momentos, parece que as cenas foram apenas coladas uma após as outras, sem que houvesse de fato conexões entre elas. Ainda assim, de certo modo, a tríade de Coppola — melancolia, angústia e solidão — está lá e funciona.

Já em comparação com a grandiosidade da obra de Luhrmann, Priscilla realmente não se aproxima e, provavelmente, esse não era o intuito já que a proposta aqui é outra. É óbvio que que narrar uma história real de machismo e apatia tem menos glamour do que uma biografia de um cantor de sucesso. Ainda assim, o filme tem seus méritos.

O grande tropeço que precisa ser criticado, por sua vez, acontece ao não aprofundar tanto as camadas emocionais da protagonista como deveria ser e como o espectador merece. O público pede mais, mas o filme não entrega, e essa decisão talvez parta até da própria biografada que participou da produção do longa. 

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Fica, então, a sensação que o longa tinha muito mais a falar, mas se calou. Ainda assim, Coppola é corajosa para mostrar neste longa que os tempos mudaram, mas o machismo ainda impera. 



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